A borboleta e o mar

 

Escrever tem um preço.

Para mim, mais do que uma maneira de criar histórias é, principalmente, um jeito de navegar por minhas águas mais turvas.

Escrever dói.

E tornar público este texto é uma das coisas mais difíceis e corajosas que já fiz.

Se alguém por aqui já teve crise de ansiedade, espero, do fundo do coração, que o texto mexa nas tuas águas turvas e ajude a entender que tem solução.

Eu encontrei.

Boa leitura!

Ela sabe quando a ressaca vem. Mesmo dias, semanas antes.

É preciso muita atenção para notar os primeiros sinais, quase imperceptíveis. A brisa sopra enviesada, esquecendo onde deveria fazer a curva. Depois some, deixando o ar paralisado. Então, sopra leve e serena. Até que tropeça mais uma vez e volta a soprar fora de lugar.

O descompasso não tem tempo certo de duração. Às vezes são algumas horas, às vezes semanas. Mas ela sabe: é a ressaca chegando.

No ritmo dissonante, a brisa torna-se vento. O vento, ventania. Cada vez mais rápida e violenta. O mar se enfurece. Avança. Avança.

Avança.

Ela luta para salvar a borboleta.  A borboleta de asas azuis.

Não era colecionadora, não pretendia buscar outras. Aquele pequeno inseto era o primeiro ser vivo que vira se formar. Ovo, larva, pupa, imago. Não tinha sido fácil passar por cada etapa. Muito cuidado – e sofrimento – foi preciso para esperar cada fase se romper em uma nova.

A borboleta não conhece gaiolas. Nunca pensara em ter uma. Não existem gaiolas para refugiá-la.

O mar não tem piedade, ela sabe. Se aproxima agressivo e sedento da borboleta, que parece não saber para onde ir.

Desespero. Dela, da borboleta, do mar.

Assiste a batalha, consternada. O mar derramando sua língua para alcançá-la. A borboleta batendo as asas numa dança desengonçada para escapar.

Torce para que ela não desista. Continue tentando, pede em silêncio.  Não se canse.

Antes, quando havia só ressaca, evitava as lágrimas. Tinha medo que a fraqueza desse mais espaço para a destruição. Desde que o casulo se rompeu, abrindo o céu para o primeiro voo azul, aprendeu que chorar não ajuda o mar, mas a borboleta.

Na calmaria de seu choro, a ventania ia enfraquecendo, o vento retornava brisa.

O mar ia se acalmando. Bem. Aos. Poucos.

A borboleta pousa de asas fechadas. Sabe que sua beleza está no voo.

Ela sorri.

borboleta-ju

ju.jpgJuliana Borel é escritora e poeta. Pra ganhar dinheiro e pagar as contas é jornalista a maior parte da semana. Pra se inspirar gosta de ouvir Guns, trilhas sonoras e esbarrar por aí em pessoas interessantes. Em 2016, ganhou o prêmio literário Leia Comigo, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, e é uma das autoras no livro de contos “Mapas Literários – O Rio em Histórias” (Rovelle/2015) e do livreto de poesias “Miudezas” (Cartonera Carioca/2016).
Tem um blog procurasepoesia.blogspot.com.br, onde escorre todas as suas experiências..

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